Algumas suposições sobre o significado do topônimo Camboriú, totalmente divorciadas da realidade física, nos proporcionaram a oportunidade desta pesquisa.
Na primeira parte deste trabalho, faremos uma exposição sucinta sas diversas hipóteses sobre a etimologia do termo camboriú. Na segunda parte, analisaremos metodicamente o significado dos étimos, conscientes de que “é de necessidade errar, arriscando hipóteses, mas errar com a esperança de achar a solução e com a convicção de que, se tiver errado, outra há de vir que acertará” (BACHMANN,1951, p.291).
Em função das dificuldades que o termo apresenta, nos preocupamos com o método. A análise etimológica inicia com a procura das raízes primitivas escritas, nos clássicos da língua tupi-guarani. Uma comparação do significado encontrado com textos antigos da literatura brasileira dará, sem dúvida, consistência à nossa tese.
Baseados num milenar princípio da sabedoria indígena, onde uma definição toponímica é sempre uma frase acabada e uma decifração real do meio local, nos debruçamos sobre uma variada bibliografia, na tentativa de elucidar aquilo que a priori, parece um enigma.
Portanto, o nosso estudo toma antes a forma de uma análise histórico-comparativa do que lexicológica.
A seguir, apresentaremos, em síntese, as hipóteses publicadas sobre o étimo camboriú, fazendo antes alguns esclarecimentos para a melhor compreensão do texto.
Theodoro Sampaio, autor do O Tupi na Geografia Nacional, morreu antes do grande impulso que a Universidade de São Paulo deu ao desenvolvimento da língua brasílica. Além de criar a primeira cadeira de Tupi, a Universidade publicou velhos inéditos, entre eles O Vocabulários da Língua Basílica, dicionário manuscrito dos jesuítas, alicerce dos novos estudos da língua tupi. Conseqüente, a sua obra, a mais manuseada por historiadores e indianistas, infelizmente não teve a revisão que se fazia necessária. A 4ª edição, reeditada em 1955, traz, em notas ao pé da página, as modificações que mais se impunham. Não houve alterações no vocabulário etimológico. Muitas deduções erradas continuaram a ser divulgadas em livros e em revistas.
Entre essas deduções está a definição do topônimo Camboriú: rio onde corre o leite, assim decomposta: camby (leite) + ri (correndo) + y (água do rio). Apesar de ser a hipótese mais divulgada, ela define algo irreal, fantasioso, que não condiz com o pragmatismo indígena.
Outra dedução, retirada de um pequeno vocabulário do Pe. Geraldo Pawels, que por sua vez provém de uma tradução de robalo, dada por Theodoro Sampaio, é uma opinião do Pe. Raulino Reitz, publicada na revista Blumenau em Cadernos, onde Camboriú é definido como criadouro de robalo. Theodoro Sampaio traz três grafias na tradução de robalo, e entre elas, camburu. Na pesquisa que fizemos do vocábulo camurim (robalo), das oito citações encontradas, na literatura brasileira, desde 1587 a 1935, apenas três grafias diferentes aprecem: camurim, camuru e camorim. Camburu, de onde poderia ter vindo o nome Camboriú, não aparece.
Em 1928, Miguel de Brito, ao passar pela região, grafou “Cambarigú-assú”, ao invés de rio Camboriú. Desta grafia errada, fato tão comum em mapas da época, nasceram algumas suposições.
Hermes Justino Patrianova, após uma série de divagações, confirma que antigamente, Camboriú (sic) chamava-se Cambariguaçu: seio grande em cima do morro, assim decomposto: camba (mama, seio) + ari (em cima) + guaçu (grande). O autor, ao pretender justificar a sua assertiva, altera o termo tupi cama (mama, seio) em camba. Para Patrianova, o termo original Cambariguaçu seria a tradução da grande mama, que aparece numa montanha da região. É nesse contexto geográfico, muito subjetivo e irreal, na nossa opinião, que se fundamenta a citada hipótese.
Da grafia registrada por Miguel Brito, o IBGE, na Enciclopédia dos Municípios, em 1955, sugere mais duas possibilidades. Camboriú teria vindo de camburu, que de acordo com Montanova, significa chaparro ou sobro – árvore de pequena altura, cuja madeira seve para lenha. A outra possibilidade teria se originado de um étimo latino “cambore”, derivado de gamboa ou camboa, que segundo Cândido de Figueiredo, é um “pequeno esteiro que se enche com o fluxo da maré e fica em seco com o refluxo” (FIGUEIREDO, 1949, p. 1282).
A primeira das possibilidades, descrita no parágrafo anterior, é inviável, porque chaparro e sobro são árvores xerófilas, próprias dos lugares secos. A segunda não possui não possui nenhuma consistência, pois não existe o termo latino cambor, da terceira declinação, donde poderia ter vindo “cambore”. As palavras latinas “gamba” ou “camba” são da primeira declinação e não há essa flexão, como suposta origem do nome Camboriú.
Segundo o IBGR ainda, há quem atribui a origem do nome à uma grande curva do rio – lugar onde camba o rio. Esta expressão é muito popular ainda e provém do conhecimento mítico.
No Dicionário Histórico e Geográphico do Estado de Santa Catarina de José Artur Boiteux, encontramos a afirmação: “a palavra Camboriú é indígena e significa rio de camboas” (BOITEUX, 1915, p. 111). O termo camboa é polisêmico, com uma acepção de origem tupi e com outras, de origem latina. Sem uma explicação do termo, o IBGE divulgou a definição de Laudelino Freire: “lugar em que remansa a água dos rios, dando aparência de lago tranqüilo” (FREIRE, 1940, p. 2649). O próprio autor da hipótese, ao descrever o rio Camboriú, parece confirmar a assertiva latina: “(…) desliza com pouca correnteza, em terras assas férteis (…)” (BOITEUX, 1915, p. 111). Ademais, os dicionários etimológicos que trazem camboa, também na acepção tupi, são posteriores a 1950, quando o Ministério da Educação e Cultura, através do Instituto Nacional do Livro, incentivou estas publicações históricas.
Este é o resumo das principais suposições sobre o significado do terno camboriú. Não são resultados de estudos metódicos, mas cópias de traduções de algumas de alguns vocábulos de grafia semelhantes, encontrados em dicionários, cujos lexicógrafos jamais conheceram o lugar que as palavras pretendem definir. Algumas das sugestões se fundamentam apenas na metodologia da decomposição e no milagre dos metaplasmos.
Antes de qualquer análise histórico-lexicológica, é oportuno conhecer o contexto, em que viveu nosso homem pré-histórico. Recentes pesquisas alteram significativamente o conhecimento que tínhamos dele.
Análises sofisticadas de doze mil e quinhentas pessoas, cujos resultados se encontram no livro “The Backbone of History” (A Espinha Dorsal da História), editado pela Cambridge University Press, mostram que os índios o litoral catarinense, no ano 1.000, tiveram a melhor qualidade de vida biológica de todas as Américas, incluindo os imigrantes europeus. Entre esses quarenta estudiosos, estava o antropólogo Walter Neves da Universidade de São Paulo, que ao analisar o bom estado dos ossos dos nossos silvícolas, conclui que “se deve ao ambiente costeiro, rico em peixes (fonte de proteína animal) e ao hábito da caça e coleta” (ANGELO, 2002, p. 16-17).
O professor Marco de Mais, da UNISUL, em 1997, através do teste do colágeno – proteína que forma o osso humano – demonstrou que o peixe era o alimento básico. Os estudos do conhecido arqueólogo se resumem nesta afirmação: “em vez de caçadores-coletores, chegamos a conclusão que eram pescadores-coletores, os antepassados do litoral” (DIÁRIO CATARINENSE, 12 jul. 1999). Entre os sítios analisados do litoral catarinense, está o de Laranjeiras, em Balneário Camboriú, SC, que registra a presença indígena há 3800 anos.
Outra consideração diz respeito à língua falado no litoral. O guarani é um dialeto do tupi. Entre elas há pequenas diferenças, mas ambas são línguas de aglutinação, diferentes, portanto, das línguas européias, de flexão. Cada sílaba representa uma idéia e juntas formam um termo, uma frase acabada. Na toponímia, este termo é uma descrição física da realidade. Por isso, quando se pesquisa um termo tupi-guarani, o primeiro passo é decompô-lo em idéias, embora, nem sempre as raízes são monossilábicas.
Dessas considerações, deduzimos que nossos índios do litoral não eram tão atrasados e há milhares de anos, ocuparam o litoral catarinense pelos atrativos que o mesmo oferecia. Dali só saíram, quando se sentiram ameaçados pelos bandeirantes escravagistas.
Camboriú é formado por quatro idéias: caa + (a)mbo + ri + u. Da análise de cada idéia, pretendemos chegar a uma conclusão lógica, que defina uma realidade física, contida no termo.
Caa é uma idéia muito comum aos dialetos da língua tupi e se aplica a produtos do reino vegetal. De acordo com o contexto, pode significar mato, herva, galhos, varas, como catinga (mato branco), uma floresta da nossa geografia nordestina. Muitos termos, que carregam esse étimo, como a vernaculização, sofreram modificações gráficas. Capim (caapim = erva), caipora (caa + porá = morador do mato) são exemplos que provém do étimo caa.
Ambo não é um termo conhecido, mas, no termo camboriú, é atributo principal do sujeito.
No dicionário guarani-espanhol de A. Jover Peralta e T. Osuna, há várias frases elucidativas, com a raíz ambo. No verbete ramo, aparece a frase: Ca ambayá (ramos para cercar arroio). No verbete pescar, encontramos duas frases: piramboa (pescar com rede) e mbocorá (cercar).
Pe. Antônio Guash, S. J., no “El Idioma Guarani” a p. 46 registra esta frase: emboty pe ovetã (fecha a janela).
No “Vocabulário de la Língua Guarani” de Antônio Ruiz Montoya S. J. (1640) reeditado em 1893, por Paulo Restivo, no verbete cerca, aparecem essas duas frases: ambocorá (fazendo curral) e amboti (fechar com chave).
Estes exemplos fraseológicos, retirados de obras clássicas do guarani, não deixam dúvida que a idéia primitiva ambo, com sua variações sintáticas, significa cercar, fechar, trancar, encurralar.
Ri é uma abreviação (aférese), do termo meri (pequeno). Lambarai (peixe pequeno), taperi (tapera pequena) e taquari (taquara pequena) são exemplos elucidativos dessas abreviações comuns no dialeto guarani.
U é o sujeito da frase e significa rio. É próprio da “toponímia de origem tupi, as formas divergentes deste étimo, as quais aparecem grafadas com i ou y, ora com u” (CARDOSO, 1961, p. 154). Na corografia do Pará, existem o rio Iitinga (rio turvo) e o rio (rio branco). Num topônimo, o fonema tupi se transforma em i e no outro, em u.
Nas línguas de aglutinação, o singular e o plural se deduzem do contexto. Então, as nossas quatro idéias tupi-guaranis: caa (caras) + (a) mbo (cercas) + ri (pequenas) + u (rio) formam esta definição em língua portuguesa: rio das pequenas cercas de varas.
As duas idéias caa + ambo já aparecem venaculizadas no termo camboa, que se encontra em obras históricas, sempre como sinônimo de cercado, feito de varas, para apanhar peixes.
Feita esta explicação a melhor tradução do topônimo Camboriú, de etimologia tupi-guarani é RIO DAS PEQUENAS CAMBOAS.
O Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi de Antônio Geraldo da Cunha traz vários textos, onde aparece o termo camboa, de etimologia tupi-guarani, relacionado coma pesca. Três deles são contundentes.
O primeiro é de Gabriel Soares de Souza, quem em 1587, no livro Notícia do Brasil, ao falar da captura do peixe cunapu, afirma que “no tempo das águas vivas se tomam em uma tapagem de pedra e de paus a que os índios chamam camboas, onde morrem muitos (…)” (CUNHA, 1978, p. 90).
O segundo texto é de Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil, editado em 1618. Ao descrever em pescaria, assim se manifesta na ortografia da época: “(…) em hua tapajem que estaua feita em certo rio pêra pescarem nela a que nesta terra chamão camboa se chegarão dous peixes de semelhante espécie dos coais entrou hu pêra adentro, ficando o companheiro de fora (…)” (CUNHA, 1978, p. 90).
O último texto é de José Veríssimo, no livro A Pesca na Amazônia, de 1895. Ao falar sobre essas técnicas, assim as descreve:
Estes currais alongam-se, ás vezes por cem e centos e cinqüenta metros, e multiplicam-se por aquelas costas. Além destas cercas móveis, constroem camboas fixas, com varas e talas fortes ou em sítio que uma disposição especial da costa os favorece com alguma cerca natural (…). Das armadilhas as mais notáveis, por mais produtoras são o cacuri, os cercados, as camboas (…). (CUNHA, 1978, p. 90).
Os três texto citam camboa como sinônimo de tapagem, cerca fixa com varas e talas, cerca móvel e cerca natural. Na busca dos significados das raízes históricas do termo camboriú, encontramos uma frase esclarecedora: ca’ambayá, que significa ramos (varas) para cercar arroios (rio). O “á”, como conjunção pospositiva, indica fim. As demais sílabas são as idéias fundamentais do termo camboriú (varas, cercar, rio), faltando apenas a idéia secundária ri (pequenas). Se transformarmos esta finalidade em atributos do termo rio, obteremos a definição literal do topônimo Camboriú: rio de pequenas cercas de varas.
A possibilidade de se concretizar, na prática, o que a definição proclama é outro argumento, que torna a solução encontrada convincente, diminuindo os riscos de interpretações errôneas das palavras.
O acidente geográfico chamado Camboriú – rio das pequenas camboas – era ideal para esta técnica de pesca. Da sede do antigo município até a praia de Balneário Camboriú é uma extensa planície. A variação altimétrica entre aquela cidade e o mar é mínima. Sem os muros, sem os enrrocamentos, sem os aterros, sem os desassoreamentos e sem a poluição de agora, junto com as águas subiram os peixes, que com pouco trabalho, usando apenas o que a natureza produz, no refluxo das marés, garantiram a sobrevivência dos que ali viveram.
Se não bastasse os argumentos apresentados, duas ilhotas fluviais, estrategicamente situadas, faziam parte integrante das camboas do rio Camboriú. Elas eram as cercas naturais. Eram os locais, onde provavelmente os índios montavam as cercas artificiais, para a captura do peixe. O homem branco, que se estabeleceu na região a partir de 1758, aprendeu com os poucos sobreviventes tapuias, a dominar esta técnica de pesca e continuou chamando de “Camboa Grande a ilhota que está a cem metros acima da foz e Camboa Pequena a que está acima da foz do rio Pequeno” (BOITEUX, 1915, p. 110).
Este hibridismo (tupi + português) é o substrato, o étimo da língua tupi-guarani, invadido por uma cultura superior, que, apesar de vencida, consegue projetar étimos lingüísticos sobre a língua luso-brasileira, intrusa e dominadora. O tupi-guarani, em forma de substrato, projetou inúmeros topônimos vivos, explicativos e reais. A intimidade indígena com a natureza que o cercava e sua inteligência objetiva, a serviço da impressionante capacidade de observação, está expressa no topônimo Camboriú.
A nossa pesquisa parece ser convincente, mas somos conscientes que se trata de mais uma hipótese. A toponímia é uma patrimônio cultural brasileiro. Aprendemos que sua correta decifração elucida aspectos significativos da nossa memória histórica. Couto de Magalhães, com poucas palavras, justifica a importância da sua preservação: “fora muito conveniente que no Brasil conversássemos os nomes americanos não só porque tornam mais inteligível a história do Paiz em que nascemos como descrevem signaes permanentes da região e não se confundem com outros (…) “ (MAGALHÃES, 1913, p. 294).
O nome dessas duas ilhotas fluviais não aparece mais nos “modernos” livros de geografia e de história. Porém, Camboa Grande Pequena torman mais inteliigível a história de Camboriú e de Balneário Camboriú – RIO DAS PEQUENAS CAMBOAS.

Fonte: Arquivo Histórico de Balneário Camboriú/ Autor: Lino João Dell’ Antônio – Professor da UNIDAVI – Campus de Taió

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