Com o advento da Segunda Guerra Mundial, as populações do Vale do Itajaí deixaram de frequentar a beira-mar e houve uma retração neste movimento de desenvolvimento urbano. É pontual afirmar que a Segunda Guerra Mundial marcou a história da cidade e da região e, por isso, o destaque a este fato é pertinente.

A Segunda Grande Guerra ocorreu de 1939 a 1945. Em 1942, o Brasil declarou guerra contra os países do eixo (Alemanha, Itália e Japão) e enviou tropas para lutar na Europa.

Santa Catarina, por ter uma  população alemã e italiana expressiva, passou a ser extremamente vigiada pelo governo de Getúlio Vargas, pois o medo de um levante no estado era constante. Assim, tanto o interior quanto o litoral, principalmente no Vale do Itajaí, passaram a ser ocupados e monitorados pelas forças armadas.

Em Balneário Camboriú, o Balneário Hotel e outras construções de alvenaria foram usadas como base militar durante a Guerra. A Colônia de Pescadores, até então em pleno funcionamento, foi obrigada a fechar as portas em 1943, como consequência do regime de vigilância e repressão ocasionado pela guerra, e só retornou às suas atividades em 1963. O senhor Álvaro Antônio da Silva, em entrevista ao Arquivo Histórico, fala um pouco sobre aqueles tempos:

A época da guerra deu uma paralisada total em Balneário Camboriú, porque 80% dos proprietários e de quem frequentava Balneário Camboriú eram de origem alemã ou alemães, então naquela época o Hotel Balneário e o Miramar foram tomados pelo exército, o exército se estabeleceu aqui em Balneário Camboriú… Eles chamavam de polícia de praia porque, na época, corria um boato e tinha uma preocupação porque a maior colônia alemã tava localizada na nossa região de alemães, então havia boatos de submarino alemão, comunicação, informação e aquela história toda. Então, daqui de Balneário Camboriú, Cabeçudas até Porto Belo tinha a base do exército, um agrupamento pra cá, tomaram o Hotel Balneário e Miramar que eram de alemães e ali ficou como alojamento deles e também convocaram o civil. O meu pai teve de cuidar diversas vezes, ficar na praia durante a noite. … colocavam a população civil para guarda, para ajudar a guardar, guardar nada, mas tudo bem.. nos costões na beira da praia até Porto Belo era tudo vigiado durante dia e noite.¹

O Morro do Boi também vivenciou a Segunda Guerra Mundial. Dona Natividade, moradora do local, já falecida, deixou o relato:

A história de 1945 eu assisti. O submarino vigiou as costas, daí quando chegou no Morro do Boi, o seu Eleodoro, que era falador, falava de política, viu na água clara, no estaleiro grande. Ele ia pro morro dele cuidar da roça, ele viu um navio branco, no mar, daí ele foi no Garcia [na cidade de Camboriú], daí a polícia foi lá pra cima. Eu era pequena,de escola, a gente tinha casa de madeira e cozinha de barro, não podia acender querosene, porque podia dar fumaça, e eles verem.²

Histórias semelhantes a esta, de luzes e fumaças apagadas por receio de serem avistados por inimigos, também foram registradas em Florianópolis durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com Marlene de Fáveri, o governo realizou diversas simulações de ataques aéreos e “os jornais divulgavam alertas e instruções para exercícios de defesa antiaérea”. Entre as instruções estavam: colocar panos pretos nas janelas e portas para vedar a claridade, apagar as luzes durante noite, se esconder em abrigos, prestar atenção aos sons emitidos por sirenes e sinos de igrejas que indicavam o começo e fim das simulações de ataque.³

Vale lembrar, que em 2011, pesquisadores da Univali e do Instituto Kat Schurmann ENcontraram em mares catarinenses um submarino alemão, denominado U-513, afundado na Segunda Guerra Mundial.

1 Depoimento de Álvaro Antônio da Silva concedido ao Arquivo Histórico em 02/05/2006.

2 SCHLICKMANN, Mariana. Entre o campo e a cidade: memórias, trabalho e experiências na comunidade do Morro do Boi, Balneário Camboriú – SC. 2012. 80 fls. Monografia (Graduação em História) – Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Florianópolis, 2012, p. 33.

3 FÁVERI, Marlene de. Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo durante a Segunda Guerra em Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC; Itajaí: Ed. da UNIVALI, 2004, p. 49.

Fonte: Do Arraial do Bonsucesso a Balneário Camboriú: mais de 50 anos de história.

Sobre a autora: Mariana Schlickmann é doutoranda em História na Universidade do Estado de Santa Catarina, mestra em História Social da Cultura pela Universidade Federal de Minas Gerais e graduada em História (licenciatura e bacharelado) pela Universidade do Estado de Santa Catarina, pesquisadora associada do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB/UDESC e pesquisadora associada do Instituto Cultural Luisa Mahin.

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Sobre a autora

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